sexta-feira, abril 06, 2018

Histórias do Futebol em Portugal (18)... Académica versus... Académica

A 4 de junho de 1980 era escrito no templo Santiago Bernabéu um capítulo muito peculiar da História do Futebol: o Real Madrid enfrentava na final da Copa del Rey o… Real Madrid! Para tornar a “coisa” um pouco mais confusa para o leitor menos familiarizado com as efemérides do Planeta da Bola, digamos que o colosso da capital espanhola se defrontou a si mesmo na final da Taça de Espanha da temporada 1979/80! E não, não foi num jogo de treino entre os jogadores do então plantel merengue, foi mesmo um jogo oficial! Passamos a decifrar este enigma.

A equipa principal do Real Madrid defrontou nessa mítica e inédita final a sua congénere B, na altura denominada de Real Madrid Castilla. Para nos enquadrarmos melhor com este cenário, isto seria a mesma coisa que ver um dos chamados “três grandes” do nosso futebol defrontar a sua equipa B numa partida oficial.

Cenário que hoje é impensável à luz dos regulamentos, tanto em Portugal como além fronteiras, mas que naquela altura foi uma realidade.

Não vamos falar hoje (de forma esmiuçada) da caminhada de glória dos niños do Castilla até à final da Copa, onde seriam derrotados (outra coisa não seria de esperar) pelo progenitor merengue por 6-1, mas vamos sim recordar um episódio passado em Portugal com algumas semelhanças com esta fábula castelhana.

A equipa da Académica/SF na temporada de 2014/15


E esta história leva-nos a Coimbra, a cidade dos estudantes e de outros encantos, que num passado muito recente – em 2014 – assistiu a um duelo de… Académicas! Académica só há uma, pensarão por esta altura alguns leitores, mas na realidade, hoje, a cidade beijada pelo Mondego é berço de duas Associações Académica de Coimbra. Por palavras mais objetivas, a Académica/Secção de Futebol (SF) e a Académica/Organismo Autónomo de Futebol (OAF).

Sem dúvida que a existência de dois clubes sob a essência, digamos assim, de apenas um emblema é um tema polémico em Coimbra e que tem dividido a cidade. Não vamos abordar minuciosamente este dilema, rodeado da tal polémica e motivo de acesas discussões em terra dos doutores, mas antes recorda um capítulo desportivo destes dois clubes... ou simplesmente deste clube, porque para muitos opinadores a Académica é só uma.



Tal episódio aconteceu na temporada desportiva de 2014/15, quando quis o destino que a SF da Académica defrontasse na 1ª jornada do Campeonato da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra (AFC) a equipa B do OAF da Académica. Um duelo entre duas Briosas com ideologias distintas. A SF guarda em si a mística do clube constituído apenas e só por jogadores estudantes (da velha e lendária Universidade de Coimbra), atletas que entram em campo de capa aos ombros por entre gritos de F-R-A como nos velhos tempos da Briosa. À boa maneira estudantil coimbrã, portanto.

A SF foi reativada em 1977 após três anos antes o clube ter sido dissolvido e dado lugar ao então Clube Académico de Coimbra. Por sua vez, este deu origem ao Organismo Autónomo de Futebol, criado em 1984, sendo este o lado da Académica profissional, digamos assim, da Académica que hoje milita na II Liga do futebol português. 
 

Dois clubes, duas realidades distintas na defesa do mesmo emblema. Na SF joga-se única e exclusivamente por amor à Briosa, não há salários, é o verdadeiro clube dos estudantes (dizem em Coimbra); ao passo que no OAF o profissionalismo é há mais de 30 anos uma realidade, não existe a obrigatoriedade dos jogadores virem – ou frequentarem - da academia. No entanto, há igualmente quem defenda que o amor à Briosa é comum, e que de certa forma foi estranho ver as duas Académicas defrontarem-se pela primeira vez num jogo oficial de seniores naquela tarde de 28 de setembro de 2014, no Estádio Universitário de Coimbra diante de três centenas de adeptos. Uns confessavam o seu apoio à OAF, outros a sua paixão e admiração pela SF, outros apresentavam-se ainda de coração dividido, mas em comum todos tinham o amor pela Académica. O resultado final deste jogo será possivelmente o que menos importará neste confronto histórico: 3-1 para a SF que nessa temporada iria vencer a Divisão de Honra da AFC e ascender ao Campeonato Nacional de Seniores, ao passo que a equipa B do OAF quedou-se pelo 5º lugar da classificação final – recorde-se que a equipa principal do OAF disputava nessa época a I Liga. 
 

As duas Académicas iriam voltar a encontra-se na segunda volta dessa Divisão de Honra 14/15, desta feita no Campo Ramos de Carvalho, tendo a SF voltado a levar a melhor sobre o seu clone – pelo menos na designação –, desta feita por 4-3.

No entanto, para a história fica mesmo o primeiro confronto, até então inédito no escalão sénior, jogo esse que o Jornal de Notícias deu destaque na sua edição de 29 de setembro de 2014, num texto assinado pelo jornalista João Pedro Campos, que aqui postamos para a eternidade.



Secção de Futebol da Académica leva a melhor sobre o Organismo Autónomo num duelo entre amigos



JOGO A DOER PARA A HISTÓRIA DA BRIOSA



A primeira vez na história que a Secção de Futebol (SF) e Organismo Autónomo de Futebol (OAF) da Académica se defrontaram, em jogo a contar para a primeira jornada da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra, teve de tudo, no Estádio Universitário de Coimbra. Desde o tradicional “canelão” – cerimónia de batismo dos novos jogadores – feito pelas duas equipas, a uma roda e um F-R-A conjunto, e um ambiente de grande desportivismo e amizade entre todos os intervenientes, numa atmosfera rara para um encontro em que havia três pontos em disputa.



Os três pontos, esses, foram para a Académica/SF, que venceu por 3-1. Sérgio Garcês (14), Dany Marques (82) e Eduardo Seixas (84) entraram para a história da Secção, ao marcar os primeiros golos de sempre à formação com quem partilham o emblema, a casa-mãe e a história. Rui Pereira, aos 90+4, reduziu para a equipa sub-23 (ou B) da Académica. Um resultado justo, para a equipa que mais procurou a baliza adversária. Mas, no final, os espectadores aplaudiram as duas equipas, sem ligar muito a vencedores e vencidos.



Cinco golos gritados



Na primeira parte estou por uma equipa, na segunda parte estou pela outra”. A frase foi dita por uma jovem presente na bancada antes do início da partida. Entre as cerca de três centenas de espectadores que marcaram presença no Estádio Universitário, algumas caras conhecidas, com o presidente da Académica, José Eduardo Simões, à cabeça. Nuno Oliveira, candidato derrotado nas últimas eleições do clube, em maio, também não faltou, bem como o presidente da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra, Bruno Matias.



As bancadas mostraram-se divididas, mas com algum ascendente da Secção de Futebol – neste jogo a atuar de branco -, cujos lances eram acompanhados de maior entusiasmo por parte de quem se deslocou ao estádio. O extremo Sérgio Garcês protagonizou a primeira explosão de alegria no encontro, aproveitando a atrapalhação da defesa do OAF. Mas o momento de maior euforia vivida dentro e fora do campo, surgiu ao minuto 82, quando Dany Marques – um dos muitos ex-Académica/OAF que representam a equipa universitária –, ampliou a vantagem, com jogadores e treinadores da SF abraçados.



O dado mais curioso vindo da bancada foi, num jogo com quatro golos, se terem gritado cinco. Tudo porque, ao mesmo tempo, também a Académica (equipa principal da OAF) jogava, e marcava em Arouca, conquistando a primeira vitória na I Liga.



ENTREVISTA A EDUARDO SEIXAS (autor de um dos golos da SF nesse dia)



28 homens (os 22 titulares mais os seis suplentes utilizados no decorrer da partida) entraram em campo nesse dia 28 de setembro de 2014 para defender as cores da... Académica. Um deles foi Eduardo Seixas, jovem atleta que atuou pela Académica/SF e que até marcou um dos golos do triunfo da equipa que naquele dia equipou de branco. Seixas, então estudante de Ciências do Desporto em Coimbra, esteve no Museu Virtual do Futebol, onde numa breve conversa recordou as emoções daquele histórico dia.



Museu Virtual do Futebol (MVF): O Seixas subiu ao relvado do Estádio Universitário de Coimbra na condição de titular da equipa da SF para enfrentar o OAF. Que sentimentos carregava consigo naquele dia histórico ao defrontar a Académica pela... Académica?

Eduardo Seixas (ES): No meu caso específico, e de alguns outros colegas, que como eu já tinham jogado no lado contrário (no OAF), o sentimento foi de responsabilidade tremenda. Não só por termos a necessidade de provar que no OAF estavam errados quando não apostaram na nossa continuidade, mas igualmente pela conotação negativa que era dada à nossa equipa. Quisemos provar que não havia uma Académica 'boa' e uma Académica 'má'. E que apesar da falta de financiamento e de condições, quando comparado com os nossos “adversários”, tínhamos condições de fazer algo muito positivo. E como é óbvio, queríamos dignificar o símbolo que carregávamos ao peito.



MVF: Como foram vividos aqueles dias que antecederam o jogo, isto é, como é que a cidade de Coimbra estava a encarar aquela partida?

ES: Havia muita divisão de opiniões. A discussão principal era qual seria a “verdadeira” Académica, mas também se levantavam questões quanto à lógica deste jogo. Pois a Académica devia estar unida numa só.



MVF: Pegando nesta sua resposta, qual era a opinião quer do Seixas e de outros colegas seus da SF em redor deste encontro. Fazia sentido duas “Académicas” defrontarem-se no terreno de jogo?

ES: Mesmo no nosso balneário havia alguma divisão de opiniões. Este é um tema de ampla discussão, devido às origens de cada uma das equipas. Mas nessas semanas o nosso foco foi a vitória no jogo , e não tanto responder à questão se fazia ou não sentido a realização deste jogo...



MVF: ...Certo, mas o Seixas além de representar a SF também fez formação no OAF. Nesse sentido conhece bem os dois lados. E pergunto-lhe, qual é a verdadeira Académica?

ES: Não acho que haja uma “verdadeira” Académica. Nos primórdios da sua história a Académica só podia ser constituída por estudantes, e para se competir a um nível superior essa restrição dificulta o processo. Por aí procurou-se profissionalizar a Académica, formou-se então a Académica/OAF, mas acredito que ambas (as equipas) partilham os mesmos valores e ideologias. Uma num contexto profissional, e outra num contexto amador.



MVF: Mas faz sentido na sua opinião esta divisão? Ou por outro lado, acha que o profissionalismo (do futebol) e a academia (estudantes) podiam conviver perfeitamente num só clube?

ES: Penso que estas duas vertentes podem encaixar perfeitamente uma na outra, desde que haja coordenação entre ideologias.



MVF: Voltando ao jogo, ao histórico jogo entre as duas Académicas. O Seixas marcou um golo, que significado teve para si esse golo?

ES: Foi um golo especial, um turbilhão de emoções. Era um jogo que por si só gerava imensa expectativa, e eu sentia que tinha algo a provar por já ter estado do “lado de lá”. Mas também muito feliz por saber que estávamos a iniciar a nossa caminhada rumo a um objetivo (subida de divisão) nunca antes conseguido.



MVF: E o público, como estava nesse dia? Vocês sentiam divisões (no apoio) na bancada?

ES: Aqueles que estiveram presentes nesse dia foram os mesmos que nos acompanharam em toda a caminhada, por isso a única coisa que sentimos foi apoio.



MVF: Foi um jogo especial para Coimbra e ao mesmo tempo estranho (?)...

ES: Acho que foi um misto desses dois sentimentos!


quarta-feira, abril 04, 2018

12 anos a assistir aos encantos do Belo Jogo



4 de abril de 2018. Mais uma data que fica cravada na história deste humilde museu virtual. Dia em que assinalamos o 12º aniversário desde que iniciamos esta (já) longa viagem pelo passado desta modalidade que tanto nos apaixona. 12 é por norma o número atribuído aos adeptos de estádio, o famoso 12º jogador, e é precisamente assim que nos sentimos sempre que evocamos algum capítulo histórico do belo jogo, isto é, somos mais um adepto encandeado pela magia emanada do fascinante retângulo verde. Obrigado a todos aqueles que nos têm feito companhia nesta bancada virtual.

quinta-feira, março 29, 2018

Histórias do Planeta da Bola (20)... A vitória do negro sobre o racismo através do Desporto... e do futebol em particular

A história tem-nos mostrado que o Desporto tem tido um papel preponderante na construção de um mundo sem fronteiras, assumindo-se ao longo de anos, décadas e séculos não só como um veículo importante na promoção da paz e união entre povos de diferentes raças e culturas mas também como uma arma poderosa no combate ao preconceito e ao racismo entre os habitantes da aldeia global.
Ao conquistar, com o passar desses mesmos anos, décadas e séculos, o estatuto de fenómeno social de massas, o Desporto ergueu em seu redor uma espécie de civilização, geradora de deuses e mitos, mas também afigurando-se como um trono apetecido por todos os que procuravam o poder para impor os seus ideais políticos e sociais.
E é precisamente olhando para este poder que o Desporto agrega em si que por um lado iremos relembrar a oportunidade que os grandes eventos desportivos mundiais – sobretudo os Jogos Olímpicos – constituíram para que muitos regimes políticos e sociedades marcadas pela xenofobia e preconceito quisessem através deles mostrar ao mundo a superioridade da sua raça em relação às demais, atentando assim contra alguns dos principais ideais Olímpicos, que passavam pela paz, fraternidade, respeito e democracia entre os povos. Por outro lado, este trabalho visa mostrar que em vários episódios da história o mérito alcançado por atletas de raça negra contribuiu não só para a queda das pretensões desses regimes ou sociedades, mas igualmente para a quebra das barreiras do racismo, numa demonstração de que o desporto pode construir um elo de ligação harmoniosa entre os povos.
Os ideais olímpicos
Mas para compreender melhor esta filosofia de paz e harmonia aliada à exaltação em torno do mérito do atleta há que fazer uma viagem até à Grécia Antiga, o berço dos Jogos Olímpicos. Durante a ocorrência dos Jogos da Antiguidade as guerras entre as cidades gregas paravam, as hostilidades e os conflitos entre os homens cessavam durante o período em que Olímpia recebia gentes de toda a Grécia para contemplar as proezas dos atletas. Os vencedores eram elevados à categoria de heróis pelo povo grego, conquistando desta forma um lugar no patamar da imortalidade tal e qual os Deuses do Olimpo. Os Jogos Olímpicos assumiam-se assim como uma festa do mundo grego, sendo-lhes conferido um papel unificador e promotor da paz entre as cidades gregas, despertando nos homens um sentimento de pertença a uma só nação que em Olímpia se reunia para exultar o culto do corpo e do espírito, e onde os vencedores conquistavam um lugar ao lado dos Deuses do Olimpo.
Pierre de Coubertin, o sonhador dos Jogos Olímpicos
da Era Moderna
Invocando questões de ordem religiosa Teodósio interrompe no ano de 394 d.C. as Olimpíadas da Antiguidade. 1500 anos depois os Jogos reaparecem na Era Moderna pela mão de Pierre de Coubertin, um idealista francês cuja perspectiva do desporto enquanto veículo educativo poderia aperfeiçoar a conduta de uma cidadania democrata no ser humano. Partilhando a filosofia da Grécia Antiga Coubertin via os Jogos Olímpicos como os portadores mais fiéis e eficazes da ideia de paz e fraternidade entre os povos. Numa época em que conquistas técnicas como o caminho de ferro e o telégrafo propiciavam a comunicação entre as gentes de diversos pontos do Mundo Coubertin restituía os Jogos Olímpicos como uma inovação: a internacionalização. Os Jogos da Era Moderna iam assim muito além das fronteiras da Grécia Antiga. No final do 1º Congresso Olímpico Internacional, realizado em 1894, seria aprovado por unanimidade que “deveriam efetuar-se competições desportivas de quatro em quatro anos, continuando as diretivas dos Jogos Olímpicos Gregos, e que seriam convidadas todas as nações para que participassem, sem distinções de pessoas, cor, religião ou ideias políticos”. O renascimento dos Jogos deu-se precisamente no local onde há mais de 2500 anos atrás haviam nascido, a Grécia, tendo na cerimónia de abertura Coubertin sublinhado a ambição de fazer desta uma das maiores manifestações pacíficas da Humanidade, onde todos homens pudessem confraternizar admirando e enaltecendo a alta performance atlética. Reclamando para cada cultura um igual respeito os Jogos Olímpicos pretendiam assim atingir a sociedade e consciencializar os homens a melhorar as relações entre si.
Mas nem sempre os ideais olímpicos foram respeitados ao longo das edições dos Jogos que se seguiram a Atenas em 1896. Em 1904, na cidade de Saint Louis, assistiu-se a um dos ataques mais ferozes à ideia de que no seio do Jogos Olímpicos todas as culturas merecem igual respeito. No programa dos primeiros Jogos realizados em solo americano seria criada uma competição à parte para negros, índios e diminuídos físicos, a qual seria batizada de Dias Antropológicos, destinada ao entretenimento da raça branca, transparecendo desta forma para o resto do Mundo uma América racista.
Esta não era porém uma característica que se restringia unicamente ao povo norte americano. No início do século XX o advento da industrialização conferia à Europa uma capacidade económica muito superior em relação aos restantes continentes. Uma superioridade que se viria a estender aos ideais sociológicos e culturais dos europeus que no processo da colonização africana e sul americana, essencialmente, procuravam expandir as suas religiões, a sua língua, os seus costumes, por entenderem que havia uma superiorização do povo europeu em relação a todos os “não brancos”.
O futebol derruba barreiras racistas...
José Leandro Andrade
Contudo, seria em solo europeu que o ideal olímpico de igualdade e respeito entre todos os povos conheceria uma das suas primeiras grandes manifestações. Nas Olimpíadas de Paris, em 1924, as atenções seriam direcionadas para um negro uruguaio, filho de um escravo africano que no século XIX havia chegado à América do Sul, de seu nome José Leandro Andrade (de quem já aqui falámos em diversas ocasiões). Na pele de um talentoso futebolista Andrade causou espanto e deslumbramento entre os europeus. Exibindo uma agilidade felina e dotes técnicos invulgares o futebolista uruguaio encantou todos aqueles que nesse ano presenciaram o torneio olímpico de futebol, ganho com naturalidade pela seleção do Uruguai, que com a preciosa ajuda de Andrade introduziu o conceito até então desconhecido pelos europeus de arte aliada à técnica no jogo. José Leandro Andrade despontou para o Mundo nos Jogos Olímpicos de 1924, ganhando então a alcunha de “Maravilha Negra”. Em Paris Andrade passeava-se como um Deus, venerado pelos comuns mortais que com ele se cruzavam durante a sua estadia na capital francesa. Além de sublinhar a visão de respeito e igualdade entre todas as raças este exemplo mostra que o mérito e a mestria atlética de um ser humano conseguiu provocar um sentimento unânime de admiração e encantamento nos olhares centrados naquela manifestação desportiva. O Desporto conseguia aqui superar a barreira do racismo e do preconceito.
na Grã-Bretanha...
Andrew Watson
A história do endeusamento de Andrade abre-nos caminho para recordarmos aquele que foi o primeiro cidadão negro a ter o seu nome inscrito no Grande Atlas do Futebol. Mais do que isso, ele terá sido o primeiro negro a triunfar no desporto a nível planetário. O seu nome é Andrew Watson. Nasceu a 24 de maio de 1856 na então Guiana Britânica fruto de uma relação entre um barão escocês – Peter Miller Watson – e uma escrava local – Hanna Rose. Peter Watson, proprietário de uma plantação de açúcar naquela então colónia sul-americana do império britânico, não renegou o seu filho (bastardo) e na década de 60 do século XIX envia-o ainda muito jovem para a Grã-Bretanha onde inicia os estudos numa das mais reputadas escolas de Londres, a King's College School. Aos 19 anos viaja para Glasgow, para frequentar a universidade local onde cursa Filosofia, Matemática e Engenharia. É precisamente naquela cidade escocesa que o jovem Andrew tem um contacto mais próximo com o football. É então que evidencia os seus dotes de veloz e robusto defesa (tanto atuava na direita como na esquerda do setor recuado) ao serviço de emblemas de pequena dimensão, o Maxwell FC e o Parkgrove FC. O seu talento é de tal forma reconhecido que em 1880 é chamado o combinado de Glasgow (uma espécie de selecão que reuniu os melhores jogadores da cidade) para enfrentar o selecionado de Sheffield, em que os escoceses venceram por 1-0.
Mas foi já depois de ter concluído o seu percurso académico que Andrew Watson escreveu os capítulos mais sonantes da sua ligação com o futebol. Em 1880, e já depois da morte de seu pai, o qual lhe terá deixado uma considerável fortuna para que pudesse ter uma vida desafogada, Watson chega ao Queen's Park Football Club, tão só o mais reputado emblema escocês de então, como também para muitos o maior clube da Grã-Bretanha por aqueles dias. A sua perícia ajuda o clube a vencer as Taças da Escócia de 1880, 1881, 1882, 1884 e 1886, tornando-se desta forma no primeiro futebolista negro a vencer a prestigiada competição. Mas o triunfo do negro Watson num universo de brancos ganha contornos mais vincados quando em 1881 é-lhe concedida a honra de representar a seleção escocesa. 
Gravura do célebre Inglaterra - Escócia de 1881
Numa altura em que o profissionalismo estava prestes a bater à porta do jovem football, Watson enfrenta o vizinho e eterno rival da Escócia, a Inglaterra, em solo inimigo, isto é, no Kennington Oval, de Londres. Como se já não bastasse a honra de ter sido selecionado para este encontro amigável, Watson vê ainda ser-lhe entregue a responsabilidade de capitanear o onze escocês em território inglês, tornando-se desta forma não só no primeiro jogador negro a chegar a internacional como também no primeiro a capitanear uma seleção nacional. Estávamos a 12 de março de 1881, um dia histórico para Watson e para o desporto (sem barreiras étnicas). Ah, quanto ao resultado esse também entrou para a história, tendo a Escócia humilhado o eterno rival por 6-1 (!), que constitui assim a derrota caseira mais pesada da seleção dos “Três Leões”. Watson realizou mais dois jogos com a sua seleção – ante o País de Gales (1881) e novamente com a Inglaterra (1882) – antes de se mudar para Londres, onde entre 1882 e 1885 defendeu as cores de afamados emblemas locais, como o Swifts e o Corinthian FC – a “inspiração” do Corinthians brasileiro. Também em Inglaterra entrou na história do futebol daquele país, ao tornar-se no primeiro negro a jogar a famosa FA Cup – Taça de Inglaterra -, facto ocorrido na temporada de 1882/83 ao serviço do Swifts Football Club. Depois da aventura escocesa retorna a casa, Glasgow, para voltar a atuar pelo colosso Queen's Park, tendo conquistado a FA Cup escocesa de 1886 – como já vimos. No ano seguinte volta a Londres, terminando ai uma reputada carreira futebolística ao serviço do Bootle Football Club. Mais do que um notável full back, Andrew Watson era descrito como um cavalheiro, dentro e fora dos relvados, onde convivia com a fina flor britânica numa altura em que o preconceito com o cidadão negro era uma realidade um pouco por todo o Mundo. Andrew Watson quebrou esse preconceito em torno da sua figura, não se conhecendo – de acordo com a história – qualquer episódio de racismo para com Watson que depois de abandonar o futebol se tornou num respeitado e conceituado engenheiro naval. Morreu a 8 de março de 1921 o primeiro cidadão negro que levou a melhor sobre o racismo por meio do desporto.
na América do Sul...
Isabelino Gradín, a primeira lenda do futebol
na América do Sul
Há no entanto, um outro episódio (do qual já fizemos eco noutras viagens ao passado) em que o preconceito para com o negro veio ao de cima. Estávamos em 1916, ano em que a Argentina acolhe a primeira edição do Campeonato Sul-Americano de futebol, hoje denominado de Copa América. Chile e Uruguai defrontaram-se no encontro inaugural da estreante competição, no Estádio Gimnasia y Esgrima, de Buenos Aires. Sob a arbitragem do argentino Hugo Gronda os uruguaios mostraram na cancha toda a sua arte, o seu futebol rendilhado, fascinante, e... letal. Que o digam os chilenos, que caíram aos pés dos charrúas por 4-0! Episódio negativo - lamentável, na verdade - deste jogo inaugural do Campeonato Sul-Americano seria a posterior postura dos chilenos perante os factos ocorridos. Jogadores e dirigentes do Chile protestaram o encontro, queixando-se à organização que os uruguaios haviam jogado com... dois negros na sua equipa! Esses negros, ou melhor, essas lendas, eram o centro-campista Juan Delgado e o atacante Isabelino Gradín. Apelidados de "atletas do carnaval" eles foram ridicularizados pelos chilenos numa época em que o racismo imperava um pouco por todo o Mundo. este ato racista chileno seria inglório, já que tanto Gradín como Delgado seriam reconhecidos pela organização como uruguaios de berço - e na verdade eram-no - tendo o triunfo da seleção charrúa sido validado para descontentamento dos preconceituosos chilenos. Mais do que uma rotunda vitória obtida dentro de campo o Uruguai - e de um modo muito em particular Gradín e Delgado - vencia o racismo! Gradín é, aliás, tido como a primeira lenda negra do futebol (fantasista) sul-americano. Mais parecendo animados desfiles carnavalescos, as “jugaditas” deste avançado inspiraram as gerações seguintes de um pequeno país (Uruguai) que é descrito por muitos como o primeiro grande alfobre de magos da arte de conduzir a bola. A forma veloz e serpenteada como conduzia o mágico objeto esférico, deixando para trás adversários em catadupa, fazia as pessoas levantarem-se como uma mola esboçando olhares de encantamento perante aquela espécie de magia negra que brotava nas canchas de Montevideu.
e em Portugal
Guilherme Espírito Santo
No plano português, evocamos (ainda que ao de leve) a figura de Guilherme Espírito Santo, o primeiro negro a vestir o manto sagrado da seleção nacional. E o primeiro grande artista (na arte de manusear a bola) descendente de africanos a triunfar no futebol luso, há que dizê-lo. Nasceu em Lisboa, em 1919, pese embora tenha regressado ao país dos seus pais (Angola) com apenas oito anos de idade. Regressa à Metrópole em 1936, ainda adolescente, para continuar os estudos e... triunfar no Benfica com apenas 16 anos! Substituiu o lendário Vítor Silva (curiosamente o seu ídolo de infância) na liderança do ataque do clube encarnado, e o seu cavalheirismo aliado ao instinto predador pela baliza adversário são desde logo notados e admirados pela sociedade. Defendeu as cores do Benfica ao longo de 12 anos, vencendo quatro campeonatos nacionais e três Taças de Portugal, tendo certo dia outra lenda lenda daquele tempo dito que: «O Guilherme sempre foi melhor jogador de futebol que eu». Palavras de Fernando Peyroteo. Espírito Santo fez 199 golos em 285 jogos ao serviço das águias. O seu nome ganha contornos mais vincados de lenda a partir do dia 28 de novembro de 1937, altura em que representa pela primeira vez a seleção nacional, num particular ante a Espanha realizado em Vigo. Nesse dia, Espírito Santo não só efetuou o primeiro dos oito jogos em que defendeu a camisola das quinas como entrou igualmente para a história do futebol português por ter sido o primeiro jogador negro a ter tal honra. À semelhança de tantos outros pontos do globo, também o Portugal de então vivia com os seus tiques racistas. E Espírito Santo sentiu na pele esse preconceito. Corria o ano de 1947 quando numa deslocação à Madeira é negado ao atleta do Benfica o direito de pernoitar juntamente com os restantes colegas num hotel da região pelo facto de ser... negro. «Lugar de preto é no anexo», terá dito alguém responsável por essa unidade hoteleira. Frase que de imediato gerou entre a comitiva encarnada uma onda de solidariedade para com Espírito Santos, pois nessa noite todos os jogadores do Benfica dormiram no anexo! Mais uma vez o racismo foi goleado!
O caso mediático do herói negro Jesse Owens na Berlim fascista de Hitler
Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de 1936
Com o avançar dos anos os Jogos Olímpicos tornaram-se num acontecimento mediático à escala mundial. A industrialização – as vias de comunicação, o telégrafo, a imprensa, a rádio, e mais tarde a televisão – ajudou a que as Olimpíadas da Era Moderna adquirissem o estatuto de maior espetáculo desportivo do planeta. De quatro em quatro anos olhares provenientes dos mais diversos pontos do Mundo centravam-se nas demonstrações da mestria atlética de homens das mais variadas raças, credos e religiões. Na qualidade de grande evento global os Jogos Olímpicos tornaram-se alvo de interesses políticos, adquirindo o papel de importante veículo de promoção de ideologias políticas. Olhando para as Olimpíadas como um instrumento para conquistar o poder, regimes políticos serviram-se do mediatismo do evento para vangloriar o seu nacionalismo e mostrar a superioridade da raça em relação às demais. O significado de uma medalha de ouro foi alterado, o que dantes premiava a excecionalidade de um atleta era visto pelos regimes políticos como um meio para mostrar ao Mundo a superioridade da sua nação em relação às suas congéneres. O atleta tornava-se assim num objeto do seu Estado de origem com a finalidade de evidenciar a supremacia de uma raça, enquanto que o mediatismo global do evento olímpico era visto como uma vitrine para que regimes políticos e/ou sociedades pudessem vincar no plano externo as suas ideologias políticas e/ou sociais.
O ano de 1936 é um bom exemplo de como os meios políticos procuraram usar a popularidade dos Jogos Olímpicos para evidenciar ao Mundo as suas ideologias. Berlim acolheu nesse referido ano aquela que era já inequivocamente a maior manifestação desportiva do planeta. A Alemanha de então vivia sob o regime nazista comandado por Adolf Hitler. Vendo nos Jogos a ferramenta ideal para mostrar ao Mundo a superioridade da raça ariana o líder nazi não se pouparia a esforços para fazer destas as Olimpíadas mais espetaculares da história. Hitler montou uma autêntica máquina de propaganda política através dos Jogos. Com um orçamento ilimitado não deixou ao acaso o mínimo detalhe que pudesse colocar em perigo a sua estratégia de assalto ao poder através do mega evento desportivo. Um estádio olímpico foi construído propositadamente, e aos atletas alemães tudo era dado e permitido para que se pudessem preparar conveniente para o evento e desta forma conquistar o máximo número de medalhas de ouro que traduzissem a superioridade da raça ariana.
Owens é endeusado nos Jogos do fascismo e racismo
O mediatismo dos Jogos atingia o ponto mais alto da sua história até então. 49 países marcavam presença em Berlim representados por cerca de 4000 atletas. Um recorde para a altura. Pela primeira vez a televisão associava-se ao evento, difundindo imagens do populismo nazi que tomou conta de Berlim para todo o Mundo. O maior evento desportivo do planeta estava transformado numa gigantesca manifestação de índole nazi perante o olhar do Mundo. Tudo parecia correr de feição a Hitler até ao momento em que surge um descendente de escravos que com a mestria da sua performance atlética desmoronou a máquina de propaganda nazi edificada por Hitler. Jesse Owens, era o nome deste norte americano que logo nas primeiras provas dos Jogos de 1936 arrecadou quatro medalhas de ouro para espanto do planeta que seguia com atenção os desenlaces de Berlim. A proeza do negro Owens desde logo se tornou numa epopeia que deitou por terras as aspirações de Hitler em transformar um evento desportivo de cariz global numa manifestação do regime nazista por si liderado. A saga de Owens fez com saísse de Berlim endeusado por todos, inclusive pelo próprio público alemão, com exceção de Adolf Hitler, por motivos óbvios, claro está.
As histórias de Jesse Owens e José Leandro Andrade (mas também um pouco as de Andrew Watson, Isabelino Gradín, Juan Delgado e Espírito Santo), dois negros descendentes de escravos, unem-se na visão de que a virtuosidade do atleta superou as barreiras do racismo e das tentativas de superiorização de raças em relação a outras, numa época em que estas tendências vigoravam em diversas sociedades. A excecionalidade dos atletas mereceu o reconhecimento e os aplausos de raças opostas as suas, residindo neste último aspeto a ideia de uma união global em torno do espetáculo desportivo, cumprindo e enaltecendo assim um dos ideais da essência olímpica, precisamente o de promover a união e a paz entre povos dos mais diversos pontos do Mundo.

quinta-feira, março 08, 2018

Emblemas históricos (14)... Bethlehem Steel Football Club


A histórica equipa do Bethlehem Steel que logrou vencer o seu primeiro título nacional em 1915

Não é possível caminhar no presente rumo ao futuro sem olhar para o passado, sem recordar o que nos trouxe até aqui e que irá nos transportar até mais além. A História - seja ela feita de boas ou de más memórias - é por demais importante para dizermos hoje quem somos e onde queremos estar amanhã. Ninguém é o que é no presente sem ter feito um percurso para ali chegar, e é aqui, neste ponto, que o passado ganha vida ao ser evocado. Bom, esta visão (pessoal) confere vida à nossa história de hoje, à história do Bethlehem Steel Football Club, ou recorrendo a linguagem metafórica, a raíz da popularidade do soccer norte-americano. Contrariamente ao que muitos historiadores, jornalistas ou simples entusiastas do belo jogo pensam, o futebol em Terras do Tio Sam não nasceu com a contratação de Pelé por parte do New York Cosmos na década de 70, nem com a atual projeção internacional da Major League Soccer, nem mesmo com a escandalosa vitória da modesta (e amadora) seleção yankee no Mundial de 50 às custas da então super-potência planetária Inglaterra, ou com o histórico terceiro lugar obtido pelo combinado norte-americano no primeiro Campeonato do Mundo da FIFA, realizado em 1930 no Uruguai.

A fábrica Bethlehem Steel
que construiu a América!
O soccer notabilizou-se muito antes de tudo isto, e muito por influência do Bethlehem Steel Football Club, considerado como a primeira potência clubística do futebol estado-unidense. Falar deste emblema implica abordar temas como a industrialização e a imigração, e é aqui que entra o nome da Bethlehem Steel, outrora, e também ela, uma super-potência da indústria norte-americana, e um símbolo do poderio industrial da nação yankee a nível internacional. Situada em Bethlehem esta empresa transformou por completo a pequena cidade do Estado da Pensilvânia, que sensivelmente a meio do século XIX deixou de lado a sua pacatez para passar a ser uma movimentada urbe, quadriplicando nas décadas seguintes a sua população. Com o seu vincado crescimento e consequente importância na economia norte-americana, a Bethlehem Steel passou a ser vista por cidadãos de vários pontos do globo como o passaporte para o sonho americano, como o veículo rumo à conquista de uma vida melhor numa nação que abria as suas portas ao Mundo. Fundada em 1857 esta empresa tornou-se simultaneamente num curto espaço de tempo no maior construtor naval e no segundo maior produtor de aço do país. Não é à toa que inúmeros historiadores se referem aos milhares de operários que passaram pela Bethlehem Steel como "o povo que ajudou a construir a América". Esta frase é sintomática da importância da fábrica que durante décadas foi a responsável pela produção dos rails para a construção das linhas de caminho de ferro de todo o país; pela construção de navios e aviões usados, respetivamente, pela Marinha e Força Aérea norte-americanas nas duas Grandes Guerras, ou pelo fabrico do ferro usado na construção de tantos e tantos arranhas céus hoje tão comuns em qualquer grande cidade norte-americana. O tal "povo que ajudou a construir a América" era composto por cidadãos forasteiros, imigrantes à procura de um futuro risonho, provenientes na sua maioria da Europa, e das ilhas britânicas muito em particular. Durante a semana o trabalho era duro, muito duro, mas ao fim de semana tempo havia para a diversão, para o convívio, e aí... entrava em ação o soccer! Entre a classe operária sobressaiam, nos tempos livres, os cidadãos de origem britânica, que entre si matavam saudades das suas terras natais dando vida àquele objeto mágico que com eles havia feito a longa travessia no Atlântico: a bola de futebol. Os animados duelos futebolísticos sucediam-se fim-de-semana após fim-de-semana na capital do ferro, não sendo de causar estranheza que em 1907 os operários da fábrica tivessem fundado o Bethlehem Football Club. 

O símbolo dos progenitores
do futebol nos EUA
Estes homens defenderam o recém criado emblema de forma totalmente amadora nos primeiros anos de atividade oficial, por assim dizer, disputando acesos duelos contra outras equipas amadoras locais. Será imperativo dizer que naqueles dias o profissionalismo ainda não havia visto a luz do dia no universo do soccer norte-americano. O grande ponto de viragem na história do clube acontece em 1914, quando a Bethlehem Steel Corporation decide tomar as rédeas da sua equipa, sobretudo ao nível financeiro, injetando nesta capital suficiente para a tornar no primeiro grande nome do futebol da América do Norte. O clube passa então a chamar-se Bethlehem Steel Football Club. Muitos dos imigrantes que tentaram naqueles dias a sua sorte no norte do continente americano eram igualmente grandes artistas da bola, sobretudo os que viajavam de Inglaterra, a pátria do futebol moderno, tendo a Bethlehem Steel Corporation iniciado a partir de então um recrutamento minucioso no sentido de captar os melhores futebolistas para a sua equipa. Aos atletas eram-lhes oferecidos bons empregos na fábrica, na qual trabalhavam de segunda a sexta-feira, deixando o fim-de-semana para fazer aquilo para o qual haviam sido contratados: jogar o melhor futebol que sabiam. 

O primeiro estádio construído na América
única e exclusivamente para o soccer
A paixão em torno do soccer crescia a olhos vistos na nação yankee nos anos 10, de tal forma que a modalidade ascende à elite do desporto norte-americano a par do baseball ou do american football. Esse aumento de popularidade do belo jogo entre o povo, fez com que Bethlehem Steel Corporation construísse o primeiro estádio destinado única e exclusivamente à prática do futebol: o Bethlehem Steel Athletic Field, com capacidade para cerca de 2400 pessoas - hoje em dia propriedade do Moravian College, que o destina para os jogos da sua equipa de futebol americano. A glória desportiva não tardou a chegar à cidade de Bethlehem, que na temporada de 1914/15 vê a sua equipa vencer a American League of Philadelphia, uma espécie de liga regional. Mas o ponto alto dessa temporada aconteceu na então competição rainha do soccer estado unidense, a U.S. National Challenge Cup - atual US Open Cup, ou Taça dos Estados Unidos da América. Foi a primeira grande competição futebolística da nação norte-americana, e vencê-la era o equivalente a conquistar a América! Na final, o Bethlehem Steel derrotou os Brooklyn Celtic por 3-1, numa partida realizada no Taylor Stadium, na Pensilvânia. Nesse encontro brilharam algumas das primeiras grandes estrelas da história do Bethlehem Steel FC, cidadãos de origem britânica que haviam chegado aos Estados Unidos com a missão de colocar o clube no topo da América, no que a futebol diz respeito. Tommy Fleming, autor de um golo nessa final e um dos jogadores mais preponderantes na conquista desse primeiro êxito, foi uma dessas primeiras estrelas. Nascido na Escócia, Fleming havia tido uma primeira incursão no futebol dos States na primeira década do século XX, ao serviço do Fore River, de Massachusetts, antes de regressar ao seu país para representar o Morton. Ele foi uma das primeiras contratações da Bethlehem Steel Corporation para defender as cores da sua equipa, tendo-o feito até 1924. É considerado pelos historiadores do futebol estado unidense como um dos primeiros grandes extremos daquele país. Ao lado de Fleming no campo de batalha estavam ainda nomes como John "Jock" Ferguson, Robert Millar e Robert Morrison, também eles escoceses de berço e contratados especificamente para ajudar o clube a encontrar o caminho da glória. Ferguson, por exemplo, era um experiente lateral esquerdo que havia atuado no Leeds City - a semente do atual Leeds United -, ao passo que Millar – um avançado - chegou à América proveniente do St. Mirren em 1911, tendo em 1915 apontado uns impressionantes 54 golos em 33 jogos ao serviço do clube de Bethlehem. Quinze anos mais tarde, e já na qualidade de treinador, Robert Millar liderou a seleção dos Estados Unidos da América no primeiro Mundial FIFA, realizado no Uruguai, onde aí conquistou um brilhante terceiro lugar, a melhor classificação obtida até hoje pela nação yankee em Mundiais. No centro do terreno atuava Robert Morrison, outro craque proveniente das Highlands, e que antes de chegar ao continente americano havia defendido por uma ocasião as cores da Escócia numa partida internacional contra a vizinha e inimiga Inglaterra.
O cortejo pelas ruas da cidade após a conquista da American Cup
Estes foram alguns dos craques que iniciaram o percurso vitorioso do Bethlehem Steel FC ao longo da década de 10, e que culminou com mais três triunfos na U.S. National Challenge Cup – nos anos de 1916 (vitória por 1-0 sobre o Fall River Rover), de 1918 (triunfo novamente alcançado diante do Fall River Rover, por 3-1) e de 1919 (vitória sobre o Paterson, por 2-0). Paralelamente a estas conquistas o conjunto de Bethlehem somou ainda os títulos da American Cup – em 1916, 1917, 1918 e 1919 –, outra competição de nível elevado no plano nacional do emergente soccer norte-americano. Encontramos aqui muitas “dobradinhas”, ou seja, o clube dominou em diversos anos as duas maiores competições do país. Por estes dias o Bethlehem Steel FC era indiscutivelmente a maior potência do futebol da América, fruto do grande investimento financeiro que a empresa que lhe dava o nome fazia ano após ano, recrutando no Reino Unido matéria prima de qualidade que acabaria por ter um papel preponderante não só no incremento da popularidade do futebol em Terras do Tio Sam como também, e sobretudo, na abertura dos caminhos do profissionalismo. Prova da grandiosidade do clube é o facto de 15 jogadores que integraram a equipa ao longo da década de 10 foram nomeados para o Hall of Fame do futebol dos EUA, a maior distinção que um atleta pode ter na sua carreira.

Reconhecimento internacional

A equipa que esteve em digressão pela Suécia e Dinamarca em 1919
Dentro de portas o prestígio do Bethlehem Steel FC brilhava com uma intensidade crescente. Brilho esse que no final da década começava a transpor as fronteiras do continente americano rumo à Europa. Em 1919 o clube escreve mais uma página histórica, não só da sua existência como do próprio soccer dos EUA, ao tornar-se na primeira equipa profissional daquele país a atuar no Velho Continente. Quando a federação sueca enviou o convite à United Soccer Football Association para esta enviar a terras nórdicas uma equipa, a escolha do organismo norte-americano foi unânime: o Bethlehem Steel FC. Em Gotemburgo, Helsinburgo, Estocolmo e Copenhaga (na Dinamarca) a equipa efetuou vários jogas contra combinados locais, tendo vencido sete, empatado dois e perdido cinco. Os grandes campeões dos EUA, como foram anunciados aos quatro ventos pela Suécia e Dinamarca, jogaram para estádios repletos de curiosos entusiastas em ver em ação o popular clube de Bethlehem. Mais um facto que atesta a grandeza deste clube.

Archie Stark: o bombardeiro do soccer estado-unidense
 
Archie Stark
Já aqui foi dito que o crescimento do Bethlehem Steel FC foi concretizado graças ao dinheiro da Bethlehem Steel Corporation, que contratou em Inglaterra e Escócia – sobretudo neste último país – jogadores de elevada qualidade que conduziram este emblema à glória e fama internacional. Glória e fama que continuaram, de certa forma, a pairar sobre os céus de Bethlehem na década de 20, embora com menos intensidade do que nos anos 10. A explicação alude ao facto de a Bethlehem Steel Corporation ter começado a enfrentar alguns problemas financeiros no que ao investimento da sua equipa de futebol dizia respeito. Embora também, e há que frisá-lo, este abrandamento do clube no trilho das grandes conquistas nacionais tenha acontecido porque outros emblemas um pouco por toda a América começavam também eles a abraçar o profissionalismo e a contratar jogadores de referência que os conduzisse ao patamar da glória e fama que era habitado pelo Bethlehem Steel FC. Um desses emblemas, e principal rival do clube de Bethlehem na luta pela glória e fama a nível nacional era o Fall River Marksmen, do Estado de Massachusetts, e onde pontificavam alguns dos mais notáveis futebolistas estado-unidenses dessa segunda década do Século XX, entre outros, Jimmy Douglas – guarda-redes titular da seleção norte-americana no Mundial de 1930 –, o criativo médio escocês Jimmy Gallagher, Bert Patenaude – autor do primeiro hattrick num Campeonato do Mundo, precisamente em 1930 –, ou o luso descendente Billy Gonsalves, considerado por muitos como o maior jogador de todos os tempos do soccer da América. Se o domínio a nível estatal, ou regional, continuava a ser avassalador, no plano nacional o Bethlehem Steel FC apenas voltou a chegar à glória em 1924, na American Cup – após derrotar na final o grande rival de Fall River por 1-0 –, e em 1926 na U.S. National Challange Cup, na sequência de uma esmagadora vitória em Brooklyn (Nova Iorque) ante o Bem Millers por 7-2. Nesse triunfo o destaque maior vai para aquele que é considerado como o avançado mais mortífero da história do soccer nos EUA: Archie Stark. Nasceu em Glasgow (Escócia) nos finais do século XIX – mais concretamente em 1897. Archibald, o seu nome próprio, nunca defendeu qualquer emblema do seu país natal, já que muito cedo, com 14 anos, emigrou com os seus pais para New Jersey, tendo ali mesmo iniciado a sua aventura no soccer. Antes de ser contratado pelo Bethlehem Steel em 1924, Stark atuou em diversos clubes, alguns de menor dimensão, como o Kearny Scots (New Jersey), ou o Babcock & Wilcox, e noutros de maior nomeada, casos do New York Field Club e do Paterson. O escocês chega a Bethlehem numa altura em que a fábrica que gere o clube tem que vender algumas das suas principais pérolas futebolísticas para fazer face às dívidas acumuladas em torno do soccer. Abra-se um parênteses para dizer que Archie Stark era um velho sonho dos responsáveis do Bethlehem Steel FC, que em 1919, na digressão efetuada à Suécia e à Dinamarca, integraram o avançado escocês como jogador convidado nessa famosa digressão. A passagem de Stark por Bethlehem resume-se aos golos, às centenas de remates certeiros que fizeram dele o maior “bombardeiro” da história do futebol dos Estados Unidos da América (EUA). Senão vejamos. Na temporada de estreia (1924/25) ele faz o gosto ao pé por 70 ocasiões em 46 disputados (!), sendo que em termos percentuais isto equivale dizer que sozinho ele fez 52,75% dos golos da sua equipa. Este é um recorde que até hoje ninguém sequer ousou bater. Na época seguinte, a máquina de golos de Bethlehem voltou a fazer-se notar: 59 golos em 47 jogos. A veia goleadora de Stark foi decisiva para a conquista da quinta U.S. National Challenge Cup por parte Bethlehem Steel FC, que na grande final derrotaria o Bem Millers por 7-2 e com um poker do goleador escocês. Na temporada seguinte a inspiração goleadora da então grande referência de Bethlehem foi menos notada, mas ainda assim digna de registo: 25 golos em 33 jogos. Em 1927/28 ele fez 34 golos em 52 encontros, e na derradeira temporada ao serviço do clube a fasquia subiu para 49 golos em 42 encontros disputados.

Archie Stark, com as cores
do Bethlehem Steel durante
a digressão escandinava
No total, Archie Stark fez 275 golos em 252 jogos disputados pelo Bethlehem Steel FC. Foi internacional pelos EUA em duas ocasiões, contra os vizinhos do Canadá, e a sua lenda só não é equiparável à de Billy Gonsalves por causa de uma simples digressão à Europa. Passamos a explicar esta curiosidade. Durante décadas a dúvida sobre quem teria sido o primeiro grande jogador do soccer norte-amerciano da História persistiu entre historiadores e simples apaixonados pelo belo jogo. Billy Gonsalves ou Archie Stark. Ambos rivalizaram entre si por esse estatuto, mas o luso descendente leva para muitos a melhor, não só divido à sua apurada técnica – Stark era mais um finalizador do que um mago dos dribles, como era Gonsalves – mas igualmente por o facto de ter declinado o convite para defender as cores dos EUA no primeiro Mundial de futebol. Stark preferiu aceitar o convite do Fall River Marksmen para realizar alguns jogos de exibição na Checoslováquia, Hungria e Áustria. Stark terá alegado que preferia viajar pela Europa do que ir a Montevideu jogar contra seleções de segunda linha do futebol planetário de então. No entanto, quem brilhou a grande altura foi a seleção yankee nesse primeiro Mundial, alcançando o já referido terceiro lugar, muito por influências das exibições de Billy Gonsalves que a partir de então passou a ostentar o estatuto de lenda maior do soccer. Historiadores desportivos norte-americanos ainda hoje opinam que se Stark tivesse integrado a comitiva dos EUA rumo ao Uruguai talvez a sua seleção tivesse regressado a casa com a… a taça na mão (!), caso o ataque da equipa nacional estivesse entregue à dupla Stark/Gonsalves. Suposições, apenas! No entanto, Archie ainda hoje detém um recorde na seleção nacional que apenas outros três jogadores (no caso, Aldo Donelli, Landon Donovan e Joe Max Moore) igualaram, isto é, o facto de ter apontado quatro golos num jogo, algo que aconteceu num dos duelos com o Canadá em novembro de 1925. 1930 foi precisamente o ano em que Stark deixou Bethlehem, tendo terminado a sua carreira no ponto de partida, isto é, em Kearny.

Voltando ao início desta nossa longa viagem para chegar ao fim de linha do grandioso Bethlehem Steel FC. Nos finais dos anos 20 o soccer dos EUA vivia dias conturbados, fruto das guerras entre a American Soccer League e a United States Football Association pelo controlo da modalidade em termos nacionais. Os clubes entraram na guerra, juntando-se a uma ou à outra entidade. Competições como a American Cup, foram extintas, o que levou a que alguns emblemas deixassem de competir. Outros como o Bethlehem Steel FC ignoraram boicotes, como o de 1928, ordenado pela American Soccer League, que face a isto decide expulsar o clube da U.S. National Challange Cup. A juntar aos problemas financeiros este seria o passo final do Bethlehem Steel FC rumo ao abismo, à extinção, algo que viria a acontecer em 1930. Em 2015 uma espécie de nostalgia veio ao de cima em Bethlehem quando foi anunciada a fundação de um nome soccer club na cidade, batizado de: Bethlehem Steel Football Club. Filial dos Philadelphia Union (clube da Major Soccer League), este novo emblema atua hoje nos terceiro escalão do futebol estado-unidense, na United Soccer League, e é não mais do que uma homenagem ao seu progenitor e pioneiro da história do futebol profissional dos EUA. Como sustentam inúmeros historiados norte-americanos, a história do Bethlehem Steel FC (original) é a história do futebol na América.